“Seis Sinais de Cientificismo: Uma Análise Crítica a Partir de Susan Haack e Suas Implicações para o Espiritismo” Ana Carolina Goes
“Seis Sinais de Cientificismo: Uma Análise
Crítica a Partir de Susan Haack e Suas
Implicações para o Espiritismo”
Ana Carolina Goes
Introdução: A relação entre a ciência e as demais formas
de conhecimento humano constitui um dos
debates epistemológicos mais relevantes da
contemporaneidade. A ciência,
compreendida em seu sentido mais amplo,
representa um dos maiores empreendimentos
intelectuais da humanidade, sendo ao mesmo
tempo fonte de luz — isto é, de
conhecimento sistemático e progressivo
sobre a realidade — e de frutos práticos,
expressos no controle crescente que o ser
humano exerce sobre o mundo natural e
social. Não obstante sua inegável
contribuição, a ciência é um empreendimento essencialmente falível, desigual em seu
progresso e passível de abuso ideológico, político e mercadológico. É precisamente
nesse ponto de tensão que emerge o problema central analisado pela filósofa americana
Susan Haack: a distinção entre o respeito legítimo pela ciência e uma atitude de
deferência exagerada, entusiástica e acriticamente reverente, que a autora, tal como
outros que analisaram o fenômeno, denomina de "cientificismo" (HAACK, 2012).
Haack distingue com precisão duas atitudes opostas e igualmente problemáticas. De um
lado, o cinismo científico, caracterizado por uma postura invejosa e hipercrítica que
ignora ou minimiza os genuínos feitos da investigação científica. De outro, o
cientificismo, que constitui uma espécie de religiosidade secular, uma reverência
acrítica que fecha os olhos para as falhas, os limites e as contingências históricas da
ciência. Etimologicamente, o termo "cientificismo" era utilizado de forma neutra no
século XIX, designando simplesmente a orientação científica do pensamento. Foi no
século XX que adquiriu conotação pejorativa, passando a designar uma "superstição"
do progresso ou uma "imitação servil" dos métodos científicos em domínios para os
quais eles não foram concebidos (HAACK, 2012). O objetivo deste artigo é percorrer os
seis sinais diagnósticos que Haack propõe para identificar o cientificismo, expandindo a
análise para o campo do Espiritismo kardecista, onde essa patologia epistêmica se
manifesta com contornos específicos e consequências doutrinárias significativas.
1. O Primeiro Sinal: O Uso Honorífico de "Ciência" O primeiro e talvez mais disseminado sinal de cientificismo identificado por Haack consiste na transformação do termo "ciência" em um elogio epistêmico absoluto — um honorífico — desvinculado de qualquer conteúdo metodológico preciso. Quando uma palavra deixa de descrever e passa apenas a elogiar, ela perde sua capacidade cognitiva e se torna um instrumento retórico. É exatamente isso que ocorre com o vocábulo "ciência" em múltiplos contextos da vida pública contemporânea (HAACK, 2012). O exemplo mais imediato é a publicidade comercial, que recorre sistematicamente a expressões como "estudos mostram" ou "comprovado cientificamente" para conferir autoridade a produtos, hipóteses ou pontos de vista específicos, mesmo quando tais estudos são metodologicamente frágeis, financiados por partes interessadas ou simplesmente inexistentes. A mera menção ao rótulo "científico" basta para criar um efeito de credibilidade no interlocutor despreparado (HAACK, 2012). O mesmo fenômeno ocorre no âmbito judiciário, onde a exigência de "evidência científica" em processos que envolvem testemunhos, documentos históricos ou análises contextualmente complexas revela uma incompreensão profunda sobre o que constitui boa evidência. A boa evidência não é necessariamente evidência científica no sentido estrito; ela é, antes de tudo, evidência relevante, bem avaliada e adequada ao tipo de questão em julgamento. As consequências práticas dessa inflação semântica são duplas e simétricas: de um lado, produz-se o descarte de conhecimentos úteis e legítimos simplesmente por não ostentarem o rótulo "científico"; de outro, gera-se uma credulidade acrítica diante de qualquer ideia que seja apresentada sob aquele rótulo, independentemente de seu mérito intrínseco. Ambos os efeitos são nocivos ao avanço genuíno do conhecimento (HAACK, 2012).
2. O Segundo Sinal: Adornos Científicos Inapropriados
O segundo sinal de cientificismo diz respeito ao uso decorativo de elementos científicos
— jargão técnico, modelos matemáticos, aparato formal — em contextos onde tais
elementos não contribuem para a investigação real, mas funcionam apenas como
ornamentos destinados a conferir prestígio ou aparência de rigor. Haack denomina esse
fenômeno de "adornos científicos inapropriados", ressaltando que o problema não está
no uso das ferramentas em si, mas em seu emprego para exibição, em vez de para a
investigação séria (HAACK, 2012).
Nas ciências sociais, esse fenômeno se manifesta na construção de modelos
matemáticos excessivamente abstratos que, ao tentar imitar a precisão das ciências
naturais, perdem o contato com a complexidade irredutível da realidade humana. A
formalização matemática, quando empregada fora de contexto, pode criar uma ilusão de
precisão onde existe apenas indefinição disfarçada de equação. Na filosofia, o problema
assume a forma do uso de jargão técnico para fins de autopromoção acadêmica, ou de
estilos de citação e aparato bibliográfico que simulam erudição supostamente científica
sem aprofundar a análise conceitual (HAACK, 2012). Em ambos os casos, o que
deveria ser um instrumento de clareza torna-se uma barreira à compreensão e um
mecanismo de exclusão social do saber.
3. O Terceiro Sinal: A Obsessão com a Demarcação
O terceiro sinal identificado por Haack é a preocupação excessiva com o problema da
demarcação — isto é, com a definição de fronteiras nítidas entre o que é e o que não é
"ciência". Essa obsessão emerge como consequência direta do primeiro sinal: uma vez
que "ciência" se torna um honorífico, torna-se urgente determinar quem tem direito a
usá-lo. A questão, que poderia ser tratada com sobriedade intelectual, transforma-se
frequentemente em uma disputa política e judicial, motivada por agendas externas ao
interesse genuíno pelo conhecimento (HAACK, 2012).
O exemplo paradigmático é a proposta de Karl Popper, que elegeu a falseabilidade — a
capacidade de uma teoria ser potencialmente refutada pela experiência — como o
critério único e suficiente para distinguir a ciência da não ciência. Haack argumenta que
esse critério é um "monstro intelectual" por sua inconsistência interna: o próprio Popper
alterou sua avaliação sobre o estatuto científico do marxismo, da psicanálise e da teoria
da evolução em diferentes momentos de sua obra, revelando que o critério é mais
instável do que seu proponente admitia (HAACK, 2012). O problema com qualquer
critério único de demarcação é que ele tende a ser ou demasiado restritivo — excluindo
práticas que todos reconheceriam como científicas — ou demasiado permissivo —
incluindo pseudociências que nenhum cientista sério aceitaria.
A alternativa proposta por Haack é compreender as ciências como uma "federação
frouxa" de investigações interrelacionadas, sem fronteiras nítidas nem blocos
monolíticos. As ciências são melhor entendidas como um continuum de práticas
investigativas e paradigmas (tal o de Popper e os de tantos outros) que compartilham
determinadas virtudes epistêmicas — como o compromisso com a evidência, a abertura
à crítica e a disposição à revisão — do que como um conjunto homogêneo definido por
um método único. Não há uma linha unanimemente clara que separe a psicologia da
filosofia da mente, ou a cosmologia da metafísica; há, antes, afinidades, sobreposições e
zonas de transição (HAACK, 2012). Reconhecer isso não é enfraquecer a ciência; é
compreendê-la com mais precisão.
4. O Quarto Sinal: A Busca pelo "Método Científico"
Intimamente relacionado ao terceiro sinal, o quarto consiste na crença de que existiria
um "método científico" único, fixo e universal — uma espécie de algoritmo ou receita
mágica que, uma vez seguido corretamente, garantiria a produção de conhecimento
verdadeiro e distinguiria a ciência de todas as outras formas de investigação. Haack
critica com rigor essa concepção, presente em manuais didáticos que ensinam "os cinco
passos do método científico" como se a descoberta científica fosse um procedimento
mecânico reproduzível por qualquer pessoa em qualquer circunstância (HAACK, 2012).
O argumento central de Haack é que o sucesso da ciência não deriva de um método
abstrato e transcendente, mas de uma combinação de fatores concretos: instrumentos
melhores — telescópios, microscópios, aceleradores de partículas —, uma base de
conhecimento previamente acumulado e sólido, e o que ela chama de "ajuda de fundo",
ou seja, o conjunto de teorias auxiliares, técnicas de medição e pressupostos tácitos que
tornam possível cada nova investigação. Remover esses elementos e reduzir a ciência a
um "método" é como tentar explicar a maestria de um virtuoso apenas pelas notas
escritas na partitura (HAACK, 2012).
Mais fundamentalmente, Haack propõe que o que os cientistas fazem é uma forma
refinada e meticulosa do que todos os seres humanos fazem ao tentar compreender o
mundo: usar a experiência sensível e o raciocínio crítico para construir e testar
hipóteses. A ciência não é um pensamento qualitativamente diferente do pensamento
humano cotidiano; ela é o pensamento humano sendo exercido com muito mais
cuidado, mais rigor, mais instrumentação e mais autocrítica. Em outras palavras, a
ciência é uma extensão meticulosa do senso comum, não sua antítese (HAACK, 2012).
Forçar físicos, matemáticos, biólogos, psicólogos e sociólogos a um único "molde"
metodológico é ignorar que cada campo do conhecimento desenvolve os instrumentos
apropriados ao seu objeto de estudo específico. A honestidade intelectual do cientista —
seu compromisso em buscar evidências e não ignorar dados que contradigam sua teoria
— é mais importante do que qualquer procedimento formal.
5. O Quinto Sinal: Respostas Além do Escopo Científico
O quinto sinal de cientificismo consiste em estender o alcance da ciência para além de
seus limites epistêmicos legítimos, pretendendo que ela possa responder questões que
não são de natureza "factual", mas normativa, valorativa ou filosófica. Haack distingue
com precisão dois tipos de questões: as questões fáticas, que descrevem como o mundo
é, e as questões normativas, que prescrevem como o mundo deve ser. A ciência é uma
ferramenta excelente para as primeiras, mas não possui ferramentas para as segundas
(HAACK, 2012).
O cientificismo nesse domínio se manifesta na crença de que a física, a biologia ou a
neurociência (para citar apenas alguns exemplos) podem substituir a ética ou a filosofia
política. A chamada falácia naturalista — a ideia de que o que é natural é, por isso
mesmo, bom, ou de que o que a evolução nos moldou a fazer é, portanto, moralmente
correto — constitui o exemplo mais difundido dessa confusão. Haack argumenta que a
ciência pode, legitimamente, informar a ética, fornecendo dados relevantes sobre as
consequências das ações humanas, mas não pode ditar valores nem resolver disputas
normativas por meio de experimentos (HAACK, 2012). Fazendo rapidamente um
paralelo com a questão espírita que irá ser explorada mais adiante, o Espiritismo é uma
"ciência moral" não por apresentar uma metodologia científica que detém somente em
si mesma um modelo moral (ou mesmo filosófico), mas sim por esta ser o instrumento
pelo qual a sua faceta moralizadora/filosófica se manifesta (embora influenciando na
obtenção e qualidade dos resultados). Usando de uma analogia: que não se confunda o
telefone com a conversa — há relação é íntima e complementar, mas não de
interpolação absoluta.
Voltando ao lado mais materialista do debate, o reducionismo excessivo é outro sintoma
desse quinto sinal: tentar explicar fenômenos humanos complexos como a justiça, o
amor, a liberdade ou a identidade cultural exclusivamente por meio de impulsos
elétricos no cérebro ou de reações hormonais ignora a dimensão irredutível dos
fenômenos sociais e simbólicos. Da mesma forma, no âmbito político, a ciência pode
indicar as consequências prováveis de determinadas escolhas — como o impacto
ambiental ou social de uma política energética ou econômica —, mas não pode decidir,
em lugar da sociedade, qual valor deve ser priorizado eticamente quando valores
legítimos entram em conflito (HAACK, 2012).
6. O Sexto Sinal: Denegrir o Não Científico
O sexto e último sinal de cientificismo é a tendência a desvalorizar sistematicamente
tudo aquilo que não se enquadra no paradigma científico dominante, tratando a filosofia,
a religião, a literatura, a arte e a poesia como meros entretenimentos sem valor
cognitivo, ou, na melhor das hipóteses, como "meras especulações" de segunda
categoria. Haack defende com vigor que essas áreas oferecem insights genuínos e
insubstituíveis sobre a condição humana — insights que a ciência, por sua natureza e
métodos, simplesmente não consegue capturar (HAACK, 2012).
A investigação histórica, baseada em documentos e testemunhos, e a investigação
jurídica, baseada em provas testemunhais, indícios e raciocínio argumentativo, possuem
seus próprios critérios internos de rigor que não são inferiores aos da ciência, apenas
diferentes, porque diferentes são seus objetos e suas finalidades. O que Haack chama de
"cientificismo de salão" — a atitude de que qualquer explicação que não seja baseada
em neurônios ou genes é inerentemente folclórica ou ignorante — revela um
provincianismo intelectual que empobrece o debate público e acadêmico (HAACK,
2012). Explicações formuladas no nível social, psicológico ou cultural são legítimas,
necessárias e, em muitos casos, mais adequadas ao fenômeno estudado do que
explicações biológicas ou físicas em sentido amplo. A ciência é uma ferramenta
poderosa, mas a vida humana é composta por significados que a ciência observa, sem
criar. A arte, a filosofia e a religião não são rivais da ciência; são, antes, dimensões
complementares e irredutíveis da experiência humana.
7. O Cientificismo na Matriz Religiosista: O Uso da Ciência
como Argumento de Autoridade
A análise de Haack adquire uma dimensão particularmente fértil quando aplicada ao
campo das tradições espirituais e religiosas, como o Espiritismo. É preciso sublinhar,
antes de tudo, que o cientificismo não é um fenômeno exclusivo do paradigma
materialista, embora exemplos notáveis tenha sido usado aqui; ele pode e
frequentemente se manifesta também no interior de correntes religiosas e espiritualistas,
onde a ciência é utilizada não como método de descoberta, mas como "selo honorífico"
destinado a blindar distorções doutrinárias ou mesmo crenças inteiras contra críticas
legítimas (HAACK, 2012).
Mergulhando integralmente agora no debate doutrinário, um exemplo relevante é o que
poderíamos chamar de hibridismo metodológico indevido: a tentativa de validar
elementos maravilhosos ou heterodoxos — como colônias espirituais, umbrais ou regras
para fenômenos mediúnicos que não encontram respaldo na ortodoxia original — por
meio de um amálgama eclético entre parapsicologia, metapsíquica, interpretações leigas
da mecânica quântica ou reinterpretação indevida de pontos doutrinários. Tal
procedimento ignora que cada uma dessas disciplinas possui escopos, objetos e critérios
de prova distintos, e que sua combinação arbitrária não produz rigor, mas apenas a
aparência de rigor (HAACK, 2012). Manifesta-se aqui, com clareza, o Sinal 1 de Haack
— o uso honorífico da ciência para forçar a aceitação de opiniões pessoais ou
revelações isoladas — e o Sinal 2 — o emprego de terminologia técnica como
"aerobus", "salto quântico", "órgãos espirituais/perispirituais" e "frequências
vibracionais" sem qualquer base matemática, física, experimental ou, claro, doutrinária,
apenas para efeito estético e persuasivo para defender sua própria forma de
"atualização".
8. O Cientificismo Atualista no Kardecismo Ortodoxo:
Vertente A
No interior do Espiritismo de matriz kardecista mais ortodoxa, o cientificismo pode
assumir a forma do que denominamos aqui de imperialismo metodológico transposto: a
tentativa de enquadrar o Espiritismo nos cânones das ciências formais, importando
metodologias externas sem examinar sua compatibilidade com o objeto de estudo — o
Espírito — e com a filosofia doutrinária subjacente. Embora Kardec afirme
explicitamente, em "A Gênese" (Cap. I, item 55), que o Espiritismo deve acompanhar o
progresso científico e se modificar quando a ciência provar um erro doutrinário, ele não
autoriza em nenhum momento a submissão cega a métodos que anulem a natureza
ontológica e filosófica da doutrina (KARDEC, 2013).
A armadilha da "atualização" arbitrária consiste, precisamente, em confundir o espírito
progressivo que Kardec imprimiu ao Espiritismo com uma capitulação às modas
intelectuais de cada época. As ciências humanas e sociais contemporâneas, em
particular, não são epistemicamente neutras: elas carregam consigo pressupostos
filosóficos, morais e políticos que frequentemente conflitam com os princípios
fundamentais da doutrina espírita. A submissão total a tais paradigmas importa, junto
com as metodologias, distorções filosóficas que podem comprometer a integridade do
conjunto doutrinário (HAACK, 2012; KARDEC, 2013). Reconhecem-se aqui o Sinal 4
de Haack — a crença de que existe um único método legítimo, o da ciência oficial, ao
qual o Espiritismo deveria se curvar — e o Sinal 5 — a delegação de questões de cunho
moral e espiritual a especialistas acadêmicos cujas ferramentas nem sempre alcançam a
realidade transcendental.
9. O Cientificismo Isolacionista no Kardecismo Ortodoxo:
Vertente B
A segunda vertente do cientificismo no meio espírita ortodoxo é, em certo sentido, a
imagem invertida da primeira, mas não menos problemática. Trata-se de uma postura
defensiva e isolacionista que rejeita qualquer contribuição de saberes externos ao corpo
doutrinário já estabelecido, tratando o conjunto das obras de Kardec como um sistema
fechado e autossuficiente. Essa posição incorre em uma contradição interna grave: nega
o caráter progressivo e universalista que é um dos traços definidores do Espiritismo
conforme concebido pelo próprio fundador (KARDEC, 2013).
Novamente em "A Gênese" (Cap. I, item 55), Kardec é explícito ao afirmar que o
Espiritismo, caminhando com o progresso, jamais será ultrapassado, pois se novas
descobertas demonstrarem que ele está em desatualização em algum ponto, ele se
modificará nesse ponto, mantendo o diálogo constante com todos os ramos do
conhecimento humano. Tratar a doutrina como um sistema fechado é, portanto,
contradizer o próprio espírito desta. O espírita é chamado a ser um estudioso das leis da
natureza em sentido amplo, buscando aprofundamento em fontes diversas para melhor
compreender a mecânica da lei divina e as implicações filosóficas e morais dos
princípios doutrinários (KARDEC, 2013). Nessa vertente, o Sinal 3 de Haack — a
demarcação obsessiva — se manifesta na tentativa rígida de isolar a dita ciência espírita
de todas as outras formas de investigação, perdendo com isso a visão de conjunto e as
fecundas afinidades entre os diferentes campos do saber.
10. A Dimensão Filosófica e o Reducionismo Epistemológico: Um dos aspectos mais relevantes da discussão sobre o cientificismo no Espiritismo é
precisamente a questão da anterioridade lógica e filosófica em relação ao componente
experimental da doutrina. O Espiritismo é, em sua estrutura mais profunda, um
desdobramento do espiritualismo racional: muitos de seus princípios fundamentais — a
imortalidade da alma, a possibilidade de comunicação entre vivos e mortos, a existência
de Deus, a cristologia e os princípios ético-morais deles derivados — preexistem ao
método experimental espírita, sendo frutos de milênios de investigação lógica e
filosófica acumulada pela humanidade. Mesmo se não olharmos somente para a
genealogia histórica, é evidente que o próprio corpo filosófico da doutrina, ainda que
em sua manifestação mais rudimentar e passível de desenvolvimento posterior, forneceu
certos pressupostos que nortearam o Mestre Lionês em sua investigação científica
(KARDEC, 2013).
A filosofia espírita não é "filha" da ciência espírita: embora possa ter seus pontos
confirmados ou não pelo método científico, ela é a matriz que forneceu as condições de
inteligibilidade para que os fenômenos mediúnicos pudessem ser interpretados com
significado moral e espiritual. Sem a base filosófica prévia, o fenômeno seria apenas um
fato curioso sem qualquer implicação para a compreensão da existência humana. Deve
haver entre a filosofia e a ciência espíritas uma relação de irmandade e
complementaridade, não de subordinação absoluta de uma à outra (KARDEC, 2013). O
método científico espírita funciona como um "filtro" que submete ideias filosóficas
milenares ao teste da universalidade e do controle dos Espíritos por vias mediúnicas,
mas não esgota nem substitui a autoridade racional da filosofia.
Haack, ao analisar o Sinal 6 — denegrir o não científico —, oferece um argumento
preciso para esse ponto: acreditar que uma verdade filosófica só tem valor se passar pelo
escrutínio de um teste empírico é ignorar o valor da razão pura e da intuição intelectual,
que constituem, desde Aristóteles, instrumentos legítimos e insubstituíveis de acesso à
realidade (HAACK, 2012). O Espiritismo, que Kardec define como uma ciência que
toca as questões metafísicas, reconhece precisamente a independência e a validade da
especulação racional, desde que ela seja confrontada com a realidade dos fatos quando
estes se tornam disponíveis. Reduzir o Espiritismo a um cientificismo de experimento e
a filosofia espírita a uma mera epistemologia — como curiosamente tendem a fazer as
duas vertentes ortodoxas analisadas — é esquecer que a doutrina é, antes de tudo, uma
interpretação do sentido da vida, da moral e do conhecimento espiritual subsequente,
tarefa que pertence essencialmente à filosofia.
Conclusão: Por uma Investigação Científica Prudente e
Rigorosa
A análise dos seis sinais de cientificismo propostos por Susan Haack revela uma
patologia epistêmica que figura igualmente entre os paradigmas da cosmovisão
materialista e das tradições espiritualistas, cada um a sua maneira e com suas
peculiaridades. No contexto espírita, as três manifestações do cientificismo — a
atualista religiosa, a atualista ortodoxa e a isolacionista ortodoxa — pecam, a partir de
direções opostas, contra o mesmo princípio fundamental: a harmonia entre os diferentes
componentes do conhecimento, cada um respeitado em sua natureza e em seus limites
(HAACK, 2012; KARDEC, 2013).
A superação do cientificismo no meio espírita exige o reconhecimento de que o
Espiritismo é uma síntese entre diferentes áreas do conhecimento, onde os componentes
científico, filosófico e moral devem coexistir harmoniosamente, sem que um aniquile a
natureza dos demais. A prudência epistêmica recomendada por Haack — adotar rigor
metodológico e moral sem cair no isolacionismo, e buscar a atualização sem se render
ao imperialismo paradigmático das ciências formais ou do misticismo desvairado —
coincide, de forma notável, com o que o próprio Kardec estabeleceu como aspecto
quintessencial da doutrina, a sua defesa de uma fé inabalável caracterizada por poder
"(...) encarar de frente a razão em todas as épocas da humanidade" (HAACK, 2012;
KARDEC, 2013).
O mito de Ícaro oferece aqui uma metáfora potente: assim como o jovem grego caiu ao
mar por voar demasiado perto do sol com asas de cera, a ciência — espírita ou não —
corre o risco de perder sua credibilidade e sua utilidade quando tenta ocupar espaços
para os quais não foi projetada, como a filosofia, a ética e as artes. Combater o
cientificismo não é enfraquecer a ciência; é, ao contrário, um ato de defesa da ciência
real e rigorosa. Quando se rotula arbitrariamente tudo como "científico" para ganhar
autoridade, ou quando se restringe o campo do científico para excluir adversários, o
verdadeiro valor da investigação honesta e meticulosa é diluído e desmoralizado
(HAACK, 2012).
A meta, portanto, é a ciência com consciência: o resgate de uma postura investigativa
que seja simultaneamente rigorosa nos métodos, humilde nos limites e aberta ao diálogo
com todas as formas legítimas de acesso à verdade. O Espiritismo, concebido por
Kardec como uma síntese progressiva e universalista do conhecimento humano e
espiritual, oferece, em seu próprio DNA intelectual, os recursos para superar tanto o
cientificismo quanto o dogmatismo que o nega. A condição é que seus estudiosos
tenham a coragem de reler o codificador com a mesma abertura crítica que ele exigiu de
seus contemporâneos.
Referências:
HAACK, Susan. Six signs of scientism. Logos & Episteme , Iași, v. 3, n. 1, p. 75–95,
2012.
KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo.
Tradução de Guillon Ribeiro. 49. ed. Brasília: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro.
131. ed. Brasília: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 84. ed. Brasília:
FEB, 2013.
POPPER, Karl R. A lógica da pesquisa científica. Tradução de Leonidas Hegenberg e
Octanny Silveira da Mota. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 2013.
PIGLIUCCI, Massimo; BOUDRY, Maarten (org.). Philosophy of pseudoscience:
reconsidering the demarcation problem. Chicago: University of Chicago Press, 2013.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia : do romantismo ao
empiriocriticismo. São Paulo: Paulus, 2005. v. 5.
LACEY, Hugh. Is science value free? Values and scientific understanding. London:
Routledge, 1999.
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