“Seis Sinais de Cientificismo: Uma Análise Crítica a Partir de Susan Haack e Suas Implicações para o Espiritismo” Ana Carolina Goes

“Seis Sinais de Cientificismo: Uma Análise Crítica a Partir de Susan Haack e Suas Implicações para o Espiritismo” Ana Carolina Goes
Introdução: A relação entre a ciência e as demais formas de conhecimento humano constitui um dos debates epistemológicos mais relevantes da contemporaneidade. A ciência, compreendida em seu sentido mais amplo, representa um dos maiores empreendimentos intelectuais da humanidade, sendo ao mesmo tempo fonte de luz — isto é, de conhecimento sistemático e progressivo sobre a realidade — e de frutos práticos, expressos no controle crescente que o ser humano exerce sobre o mundo natural e social. Não obstante sua inegável contribuição, a ciência é um empreendimento essencialmente falível, desigual em seu progresso e passível de abuso ideológico, político e mercadológico. É precisamente nesse ponto de tensão que emerge o problema central analisado pela filósofa americana Susan Haack: a distinção entre o respeito legítimo pela ciência e uma atitude de deferência exagerada, entusiástica e acriticamente reverente, que a autora, tal como outros que analisaram o fenômeno, denomina de "cientificismo" (HAACK, 2012). Haack distingue com precisão duas atitudes opostas e igualmente problemáticas. De um lado, o cinismo científico, caracterizado por uma postura invejosa e hipercrítica que ignora ou minimiza os genuínos feitos da investigação científica. De outro, o cientificismo, que constitui uma espécie de religiosidade secular, uma reverência acrítica que fecha os olhos para as falhas, os limites e as contingências históricas da ciência. Etimologicamente, o termo "cientificismo" era utilizado de forma neutra no século XIX, designando simplesmente a orientação científica do pensamento. Foi no século XX que adquiriu conotação pejorativa, passando a designar uma "superstição" do progresso ou uma "imitação servil" dos métodos científicos em domínios para os quais eles não foram concebidos (HAACK, 2012). O objetivo deste artigo é percorrer os seis sinais diagnósticos que Haack propõe para identificar o cientificismo, expandindo a análise para o campo do Espiritismo kardecista, onde essa patologia epistêmica se manifesta com contornos específicos e consequências doutrinárias significativas. 

1. O Primeiro Sinal: O Uso Honorífico de "Ciência" O primeiro e talvez mais disseminado sinal de cientificismo identificado por Haack consiste na transformação do termo "ciência" em um elogio epistêmico absoluto — um honorífico — desvinculado de qualquer conteúdo metodológico preciso. Quando uma palavra deixa de descrever e passa apenas a elogiar, ela perde sua capacidade cognitiva e se torna um instrumento retórico. É exatamente isso que ocorre com o vocábulo "ciência" em múltiplos contextos da vida pública contemporânea (HAACK, 2012). O exemplo mais imediato é a publicidade comercial, que recorre sistematicamente a expressões como "estudos mostram" ou "comprovado cientificamente" para conferir autoridade a produtos, hipóteses ou pontos de vista específicos, mesmo quando tais estudos são metodologicamente frágeis, financiados por partes interessadas ou simplesmente inexistentes. A mera menção ao rótulo "científico" basta para criar um efeito de credibilidade no interlocutor despreparado (HAACK, 2012). O mesmo fenômeno ocorre no âmbito judiciário, onde a exigência de "evidência científica" em processos que envolvem testemunhos, documentos históricos ou análises contextualmente complexas revela uma incompreensão profunda sobre o que constitui boa evidência. A boa evidência não é necessariamente evidência científica no sentido estrito; ela é, antes de tudo, evidência relevante, bem avaliada e adequada ao tipo de questão em julgamento. As consequências práticas dessa inflação semântica são duplas e simétricas: de um lado, produz-se o descarte de conhecimentos úteis e legítimos simplesmente por não ostentarem o rótulo "científico"; de outro, gera-se uma credulidade acrítica diante de qualquer ideia que seja apresentada sob aquele rótulo, independentemente de seu mérito intrínseco. Ambos os efeitos são nocivos ao avanço genuíno do conhecimento (HAACK, 2012).

2. O Segundo Sinal: Adornos Científicos Inapropriados O segundo sinal de cientificismo diz respeito ao uso decorativo de elementos científicos — jargão técnico, modelos matemáticos, aparato formal — em contextos onde tais elementos não contribuem para a investigação real, mas funcionam apenas como ornamentos destinados a conferir prestígio ou aparência de rigor. Haack denomina esse fenômeno de "adornos científicos inapropriados", ressaltando que o problema não está no uso das ferramentas em si, mas em seu emprego para exibição, em vez de para a investigação séria (HAACK, 2012). Nas ciências sociais, esse fenômeno se manifesta na construção de modelos matemáticos excessivamente abstratos que, ao tentar imitar a precisão das ciências naturais, perdem o contato com a complexidade irredutível da realidade humana. A formalização matemática, quando empregada fora de contexto, pode criar uma ilusão de precisão onde existe apenas indefinição disfarçada de equação. Na filosofia, o problema assume a forma do uso de jargão técnico para fins de autopromoção acadêmica, ou de estilos de citação e aparato bibliográfico que simulam erudição supostamente científica sem aprofundar a análise conceitual (HAACK, 2012). Em ambos os casos, o que deveria ser um instrumento de clareza torna-se uma barreira à compreensão e um mecanismo de exclusão social do saber. 

3. O Terceiro Sinal: A Obsessão com a Demarcação O terceiro sinal identificado por Haack é a preocupação excessiva com o problema da demarcação — isto é, com a definição de fronteiras nítidas entre o que é e o que não é "ciência". Essa obsessão emerge como consequência direta do primeiro sinal: uma vez que "ciência" se torna um honorífico, torna-se urgente determinar quem tem direito a usá-lo. A questão, que poderia ser tratada com sobriedade intelectual, transforma-se frequentemente em uma disputa política e judicial, motivada por agendas externas ao interesse genuíno pelo conhecimento (HAACK, 2012). O exemplo paradigmático é a proposta de Karl Popper, que elegeu a falseabilidade — a capacidade de uma teoria ser potencialmente refutada pela experiência — como o critério único e suficiente para distinguir a ciência da não ciência. Haack argumenta que esse critério é um "monstro intelectual" por sua inconsistência interna: o próprio Popper alterou sua avaliação sobre o estatuto científico do marxismo, da psicanálise e da teoria da evolução em diferentes momentos de sua obra, revelando que o critério é mais instável do que seu proponente admitia (HAACK, 2012). O problema com qualquer critério único de demarcação é que ele tende a ser ou demasiado restritivo — excluindo práticas que todos reconheceriam como científicas — ou demasiado permissivo — incluindo pseudociências que nenhum cientista sério aceitaria. A alternativa proposta por Haack é compreender as ciências como uma "federação frouxa" de investigações interrelacionadas, sem fronteiras nítidas nem blocos monolíticos. As ciências são melhor entendidas como um continuum de práticas investigativas e paradigmas (tal o de Popper e os de tantos outros) que compartilham determinadas virtudes epistêmicas — como o compromisso com a evidência, a abertura à crítica e a disposição à revisão — do que como um conjunto homogêneo definido por um método único. Não há uma linha unanimemente clara que separe a psicologia da filosofia da mente, ou a cosmologia da metafísica; há, antes, afinidades, sobreposições e zonas de transição (HAACK, 2012). Reconhecer isso não é enfraquecer a ciência; é compreendê-la com mais precisão.

4. O Quarto Sinal: A Busca pelo "Método Científico" Intimamente relacionado ao terceiro sinal, o quarto consiste na crença de que existiria um "método científico" único, fixo e universal — uma espécie de algoritmo ou receita mágica que, uma vez seguido corretamente, garantiria a produção de conhecimento verdadeiro e distinguiria a ciência de todas as outras formas de investigação. Haack critica com rigor essa concepção, presente em manuais didáticos que ensinam "os cinco passos do método científico" como se a descoberta científica fosse um procedimento mecânico reproduzível por qualquer pessoa em qualquer circunstância (HAACK, 2012). O argumento central de Haack é que o sucesso da ciência não deriva de um método abstrato e transcendente, mas de uma combinação de fatores concretos: instrumentos melhores — telescópios, microscópios, aceleradores de partículas —, uma base de conhecimento previamente acumulado e sólido, e o que ela chama de "ajuda de fundo", ou seja, o conjunto de teorias auxiliares, técnicas de medição e pressupostos tácitos que tornam possível cada nova investigação. Remover esses elementos e reduzir a ciência a um "método" é como tentar explicar a maestria de um virtuoso apenas pelas notas escritas na partitura (HAACK, 2012). Mais fundamentalmente, Haack propõe que o que os cientistas fazem é uma forma refinada e meticulosa do que todos os seres humanos fazem ao tentar compreender o mundo: usar a experiência sensível e o raciocínio crítico para construir e testar hipóteses. A ciência não é um pensamento qualitativamente diferente do pensamento humano cotidiano; ela é o pensamento humano sendo exercido com muito mais cuidado, mais rigor, mais instrumentação e mais autocrítica. Em outras palavras, a ciência é uma extensão meticulosa do senso comum, não sua antítese (HAACK, 2012). Forçar físicos, matemáticos, biólogos, psicólogos e sociólogos a um único "molde" metodológico é ignorar que cada campo do conhecimento desenvolve os instrumentos apropriados ao seu objeto de estudo específico. A honestidade intelectual do cientista — seu compromisso em buscar evidências e não ignorar dados que contradigam sua teoria — é mais importante do que qualquer procedimento formal. 

5. O Quinto Sinal: Respostas Além do Escopo Científico O quinto sinal de cientificismo consiste em estender o alcance da ciência para além de seus limites epistêmicos legítimos, pretendendo que ela possa responder questões que não são de natureza "factual", mas normativa, valorativa ou filosófica. Haack distingue com precisão dois tipos de questões: as questões fáticas, que descrevem como o mundo é, e as questões normativas, que prescrevem como o mundo deve ser. A ciência é uma ferramenta excelente para as primeiras, mas não possui ferramentas para as segundas (HAACK, 2012). O cientificismo nesse domínio se manifesta na crença de que a física, a biologia ou a neurociência (para citar apenas alguns exemplos) podem substituir a ética ou a filosofia política. A chamada falácia naturalista — a ideia de que o que é natural é, por isso mesmo, bom, ou de que o que a evolução nos moldou a fazer é, portanto, moralmente correto — constitui o exemplo mais difundido dessa confusão. Haack argumenta que a ciência pode, legitimamente, informar a ética, fornecendo dados relevantes sobre as consequências das ações humanas, mas não pode ditar valores nem resolver disputas normativas por meio de experimentos (HAACK, 2012). Fazendo rapidamente um paralelo com a questão espírita que irá ser explorada mais adiante, o Espiritismo é uma "ciência moral" não por apresentar uma metodologia científica que detém somente em si mesma um modelo moral (ou mesmo filosófico), mas sim por esta ser o instrumento pelo qual a sua faceta moralizadora/filosófica se manifesta (embora influenciando na obtenção e qualidade dos resultados). Usando de uma analogia: que não se confunda o telefone com a conversa — há relação é íntima e complementar, mas não de interpolação absoluta. Voltando ao lado mais materialista do debate, o reducionismo excessivo é outro sintoma desse quinto sinal: tentar explicar fenômenos humanos complexos como a justiça, o amor, a liberdade ou a identidade cultural exclusivamente por meio de impulsos elétricos no cérebro ou de reações hormonais ignora a dimensão irredutível dos fenômenos sociais e simbólicos. Da mesma forma, no âmbito político, a ciência pode indicar as consequências prováveis de determinadas escolhas — como o impacto ambiental ou social de uma política energética ou econômica —, mas não pode decidir, em lugar da sociedade, qual valor deve ser priorizado eticamente quando valores legítimos entram em conflito (HAACK, 2012).

6. O Sexto Sinal: Denegrir o Não Científico O sexto e último sinal de cientificismo é a tendência a desvalorizar sistematicamente tudo aquilo que não se enquadra no paradigma científico dominante, tratando a filosofia, a religião, a literatura, a arte e a poesia como meros entretenimentos sem valor cognitivo, ou, na melhor das hipóteses, como "meras especulações" de segunda categoria. Haack defende com vigor que essas áreas oferecem insights genuínos e insubstituíveis sobre a condição humana — insights que a ciência, por sua natureza e métodos, simplesmente não consegue capturar (HAACK, 2012). A investigação histórica, baseada em documentos e testemunhos, e a investigação jurídica, baseada em provas testemunhais, indícios e raciocínio argumentativo, possuem seus próprios critérios internos de rigor que não são inferiores aos da ciência, apenas diferentes, porque diferentes são seus objetos e suas finalidades. O que Haack chama de "cientificismo de salão" — a atitude de que qualquer explicação que não seja baseada em neurônios ou genes é inerentemente folclórica ou ignorante — revela um provincianismo intelectual que empobrece o debate público e acadêmico (HAACK, 2012). Explicações formuladas no nível social, psicológico ou cultural são legítimas, necessárias e, em muitos casos, mais adequadas ao fenômeno estudado do que explicações biológicas ou físicas em sentido amplo. A ciência é uma ferramenta poderosa, mas a vida humana é composta por significados que a ciência observa, sem criar. A arte, a filosofia e a religião não são rivais da ciência; são, antes, dimensões complementares e irredutíveis da experiência humana.

7. O Cientificismo na Matriz Religiosista: O Uso da Ciência como Argumento de Autoridade A análise de Haack adquire uma dimensão particularmente fértil quando aplicada ao campo das tradições espirituais e religiosas, como o Espiritismo. É preciso sublinhar, antes de tudo, que o cientificismo não é um fenômeno exclusivo do paradigma materialista, embora exemplos notáveis tenha sido usado aqui; ele pode e frequentemente se manifesta também no interior de correntes religiosas e espiritualistas, onde a ciência é utilizada não como método de descoberta, mas como "selo honorífico" destinado a blindar distorções doutrinárias ou mesmo crenças inteiras contra críticas legítimas (HAACK, 2012). Mergulhando integralmente agora no debate doutrinário, um exemplo relevante é o que poderíamos chamar de hibridismo metodológico indevido: a tentativa de validar elementos maravilhosos ou heterodoxos — como colônias espirituais, umbrais ou regras para fenômenos mediúnicos que não encontram respaldo na ortodoxia original — por meio de um amálgama eclético entre parapsicologia, metapsíquica, interpretações leigas da mecânica quântica ou reinterpretação indevida de pontos doutrinários. Tal procedimento ignora que cada uma dessas disciplinas possui escopos, objetos e critérios de prova distintos, e que sua combinação arbitrária não produz rigor, mas apenas a aparência de rigor (HAACK, 2012). Manifesta-se aqui, com clareza, o Sinal 1 de Haack — o uso honorífico da ciência para forçar a aceitação de opiniões pessoais ou revelações isoladas — e o Sinal 2 — o emprego de terminologia técnica como "aerobus", "salto quântico", "órgãos espirituais/perispirituais" e "frequências vibracionais" sem qualquer base matemática, física, experimental ou, claro, doutrinária, apenas para efeito estético e persuasivo para defender sua própria forma de "atualização".

8. O Cientificismo Atualista no Kardecismo Ortodoxo: Vertente A No interior do Espiritismo de matriz kardecista mais ortodoxa, o cientificismo pode assumir a forma do que denominamos aqui de imperialismo metodológico transposto: a tentativa de enquadrar o Espiritismo nos cânones das ciências formais, importando metodologias externas sem examinar sua compatibilidade com o objeto de estudo — o Espírito — e com a filosofia doutrinária subjacente. Embora Kardec afirme explicitamente, em "A Gênese" (Cap. I, item 55), que o Espiritismo deve acompanhar o progresso científico e se modificar quando a ciência provar um erro doutrinário, ele não autoriza em nenhum momento a submissão cega a métodos que anulem a natureza ontológica e filosófica da doutrina (KARDEC, 2013). A armadilha da "atualização" arbitrária consiste, precisamente, em confundir o espírito progressivo que Kardec imprimiu ao Espiritismo com uma capitulação às modas intelectuais de cada época. As ciências humanas e sociais contemporâneas, em particular, não são epistemicamente neutras: elas carregam consigo pressupostos filosóficos, morais e políticos que frequentemente conflitam com os princípios fundamentais da doutrina espírita. A submissão total a tais paradigmas importa, junto com as metodologias, distorções filosóficas que podem comprometer a integridade do conjunto doutrinário (HAACK, 2012; KARDEC, 2013). Reconhecem-se aqui o Sinal 4 de Haack — a crença de que existe um único método legítimo, o da ciência oficial, ao qual o Espiritismo deveria se curvar — e o Sinal 5 — a delegação de questões de cunho moral e espiritual a especialistas acadêmicos cujas ferramentas nem sempre alcançam a realidade transcendental. 

9. O Cientificismo Isolacionista no Kardecismo Ortodoxo: Vertente B A segunda vertente do cientificismo no meio espírita ortodoxo é, em certo sentido, a imagem invertida da primeira, mas não menos problemática. Trata-se de uma postura defensiva e isolacionista que rejeita qualquer contribuição de saberes externos ao corpo doutrinário já estabelecido, tratando o conjunto das obras de Kardec como um sistema fechado e autossuficiente. Essa posição incorre em uma contradição interna grave: nega o caráter progressivo e universalista que é um dos traços definidores do Espiritismo conforme concebido pelo próprio fundador (KARDEC, 2013). Novamente em "A Gênese" (Cap. I, item 55), Kardec é explícito ao afirmar que o Espiritismo, caminhando com o progresso, jamais será ultrapassado, pois se novas descobertas demonstrarem que ele está em desatualização em algum ponto, ele se modificará nesse ponto, mantendo o diálogo constante com todos os ramos do conhecimento humano. Tratar a doutrina como um sistema fechado é, portanto, contradizer o próprio espírito desta. O espírita é chamado a ser um estudioso das leis da natureza em sentido amplo, buscando aprofundamento em fontes diversas para melhor compreender a mecânica da lei divina e as implicações filosóficas e morais dos princípios doutrinários (KARDEC, 2013). Nessa vertente, o Sinal 3 de Haack — a demarcação obsessiva — se manifesta na tentativa rígida de isolar a dita ciência espírita de todas as outras formas de investigação, perdendo com isso a visão de conjunto e as fecundas afinidades entre os diferentes campos do saber. 

10. A Dimensão Filosófica e o Reducionismo Epistemológico: Um dos aspectos mais relevantes da discussão sobre o cientificismo no Espiritismo é precisamente a questão da anterioridade lógica e filosófica em relação ao componente experimental da doutrina. O Espiritismo é, em sua estrutura mais profunda, um desdobramento do espiritualismo racional: muitos de seus princípios fundamentais — a imortalidade da alma, a possibilidade de comunicação entre vivos e mortos, a existência de Deus, a cristologia e os princípios ético-morais deles derivados — preexistem ao método experimental espírita, sendo frutos de milênios de investigação lógica e filosófica acumulada pela humanidade. Mesmo se não olharmos somente para a genealogia histórica, é evidente que o próprio corpo filosófico da doutrina, ainda que em sua manifestação mais rudimentar e passível de desenvolvimento posterior, forneceu certos pressupostos que nortearam o Mestre Lionês em sua investigação científica (KARDEC, 2013). A filosofia espírita não é "filha" da ciência espírita: embora possa ter seus pontos confirmados ou não pelo método científico, ela é a matriz que forneceu as condições de inteligibilidade para que os fenômenos mediúnicos pudessem ser interpretados com significado moral e espiritual. Sem a base filosófica prévia, o fenômeno seria apenas um fato curioso sem qualquer implicação para a compreensão da existência humana. Deve haver entre a filosofia e a ciência espíritas uma relação de irmandade e complementaridade, não de subordinação absoluta de uma à outra (KARDEC, 2013). O método científico espírita funciona como um "filtro" que submete ideias filosóficas milenares ao teste da universalidade e do controle dos Espíritos por vias mediúnicas, mas não esgota nem substitui a autoridade racional da filosofia. Haack, ao analisar o Sinal 6 — denegrir o não científico —, oferece um argumento preciso para esse ponto: acreditar que uma verdade filosófica só tem valor se passar pelo escrutínio de um teste empírico é ignorar o valor da razão pura e da intuição intelectual, que constituem, desde Aristóteles, instrumentos legítimos e insubstituíveis de acesso à realidade (HAACK, 2012). O Espiritismo, que Kardec define como uma ciência que toca as questões metafísicas, reconhece precisamente a independência e a validade da especulação racional, desde que ela seja confrontada com a realidade dos fatos quando estes se tornam disponíveis. Reduzir o Espiritismo a um cientificismo de experimento e a filosofia espírita a uma mera epistemologia — como curiosamente tendem a fazer as duas vertentes ortodoxas analisadas — é esquecer que a doutrina é, antes de tudo, uma interpretação do sentido da vida, da moral e do conhecimento espiritual subsequente, tarefa que pertence essencialmente à filosofia. 

Conclusão: Por uma Investigação Científica Prudente e Rigorosa A análise dos seis sinais de cientificismo propostos por Susan Haack revela uma patologia epistêmica que figura igualmente entre os paradigmas da cosmovisão materialista e das tradições espiritualistas, cada um a sua maneira e com suas peculiaridades. No contexto espírita, as três manifestações do cientificismo — a atualista religiosa, a atualista ortodoxa e a isolacionista ortodoxa — pecam, a partir de direções opostas, contra o mesmo princípio fundamental: a harmonia entre os diferentes componentes do conhecimento, cada um respeitado em sua natureza e em seus limites (HAACK, 2012; KARDEC, 2013). A superação do cientificismo no meio espírita exige o reconhecimento de que o Espiritismo é uma síntese entre diferentes áreas do conhecimento, onde os componentes científico, filosófico e moral devem coexistir harmoniosamente, sem que um aniquile a natureza dos demais. A prudência epistêmica recomendada por Haack — adotar rigor metodológico e moral sem cair no isolacionismo, e buscar a atualização sem se render ao imperialismo paradigmático das ciências formais ou do misticismo desvairado — coincide, de forma notável, com o que o próprio Kardec estabeleceu como aspecto quintessencial da doutrina, a sua defesa de uma fé inabalável caracterizada por poder "(...) encarar de frente a razão em todas as épocas da humanidade" (HAACK, 2012; KARDEC, 2013). O mito de Ícaro oferece aqui uma metáfora potente: assim como o jovem grego caiu ao mar por voar demasiado perto do sol com asas de cera, a ciência — espírita ou não — corre o risco de perder sua credibilidade e sua utilidade quando tenta ocupar espaços para os quais não foi projetada, como a filosofia, a ética e as artes. Combater o cientificismo não é enfraquecer a ciência; é, ao contrário, um ato de defesa da ciência real e rigorosa. Quando se rotula arbitrariamente tudo como "científico" para ganhar autoridade, ou quando se restringe o campo do científico para excluir adversários, o verdadeiro valor da investigação honesta e meticulosa é diluído e desmoralizado (HAACK, 2012). A meta, portanto, é a ciência com consciência: o resgate de uma postura investigativa que seja simultaneamente rigorosa nos métodos, humilde nos limites e aberta ao diálogo com todas as formas legítimas de acesso à verdade. O Espiritismo, concebido por Kardec como uma síntese progressiva e universalista do conhecimento humano e espiritual, oferece, em seu próprio DNA intelectual, os recursos para superar tanto o cientificismo quanto o dogmatismo que o nega. A condição é que seus estudiosos tenham a coragem de reler o codificador com a mesma abertura crítica que ele exigiu de seus contemporâneos.

Referências:
HAACK, Susan. Six signs of scientism. Logos & Episteme , Iași, v. 3, n. 1, p. 75–95, 2012.
KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 49. ed. Brasília: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 131. ed. Brasília: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 84. ed. Brasília: FEB, 2013. 
POPPER, Karl R. A lógica da pesquisa científica. Tradução de Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 2013. 
PIGLIUCCI, Massimo; BOUDRY, Maarten (org.). Philosophy of pseudoscience: reconsidering the demarcation problem. Chicago: University of Chicago Press, 2013.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia : do romantismo ao empiriocriticismo. São Paulo: Paulus, 2005. v. 5. 
LACEY, Hugh. Is science value free? Values and scientific understanding. London: Routledge, 1999. 








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