Kardec × Chico: o culto à pobreza? Terceiro Mundo, Brasil

Vivemos em um mundo capitalista, gostemos ou não. Devemos seguir as regras do jogo inevitavelmente, pois isso constitui um fato social. No entanto, mesmo estando o Brasil inserido em um mundo globalizado e capitalista, parte de sua população ainda costuma aderir a pensamentos pseudofranciscanos, fruto de uma interpretação equivocada do catolicismo popular e de uma rejeição irracional à ética do capitalismo protestante, que, segundo Max Weber, contribuiu para moldar o mundo moderno.

Muitas vezes se defende a ideia de que devemos ser como Chico: não ter dinheiro, não envolver dinheiro no espiritismo, etc. (ainda que se saiba que Chico não viveu exatamente dessa forma e que houve apoio financeiro indireto em sua trajetória). Contudo, diante disso, surge a pergunta: como se financiariam eventos, canais, equipamentos e estruturas necessárias para a divulgação? Não há resposta clara. Além disso, como pessoas pobres participariam ativamente do espiritismo se não tivessem recursos sequer para se deslocar ou contribuir minimamente?

Kardec, ao contrário do que muitos imaginam, tinha uma visão bastante liberal em termos econômicos. Em O Livro dos Espíritos, chega a tratar o direito de propriedade como algo fundamental para a organização social, aproximando-o do direito à própria vida sob certos aspectos. Os humildes que herdarão a Terra não serão os "fracassados" deste mundo, mas aqueles que se conduziram diante de Deus conforme Suas leis. É possível ser pobre e ainda assim rejeitar as leis divinas — como também é possível ser rico e agir conforme elas. Essa é a perspectiva apresentada em O Evangelho segundo o Espiritismo.

Em síntese, o conselho é: não se devem criar regras no espiritismo onde elas não existem. É preciso apontar em Kardec o texto que literalmente estabeleça determinada proibição, em vez de inventar normas próprias. Kardec advertiu contra a cobrança pela mediunidade, mas não proibiu outras formas de organização financeira, como contribuições para eventos e manutenção de instituições. A própria Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas se mantinha com o apoio financeiro de seus participantes.

Curiosamente, muitas vezes são pessoas da classe média que mais reclamam da presença do dinheiro nessas questões. O pobre não deseja a pobreza. Em geral, quem romantiza a miséria é quem não a vivencia.













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