Augusto Comte

 (a Augusto Comte) - Obrigado por se dispor a confabular conosco. Se nos permite perguntar, quais têm sido suas ocupações no mundo espiritual? Que atividades atraem sua atenção prioritariamente hoje? “Tenho me ocupado de influenciar escritores que têm ideias similares às minhas, para continuar minha obra na Terra. Vago por aí procurando mentes que possam compreender meu pensamento.” 

(a Augusto Comte) - Quando esteve encarnado entre nós, seu sistema sustentava a prevalência do material, do “não-especulativo”, do “positivo”, e afastava as considerações metafísicas. Como enxerga hoje essa atitude? Suas posições a respeito estão revistas? “As religiões tradicionais apresentam um céu distante, metafórico e abstrato. Hoje me enxergo no mundo dos Espíritos com um corpo, embora fluídico, mas que tem a forma humana. É concreto. Delimitado. Este mundo que vejo do lado de cá é bastante positivo. Há formas, que são criadas pelo pensamento. Em vida, desprezei o estudo do Espiritismo e por isso não me convenci da realidade de além-túmulo. Se pudesse ter estudado os efeitos mediúnicos, veria que, enquanto encarnado, podia de certa forma apalpar o mundo dos Espíritos com minhas mãos.” 

NOTA: Comte desencarnou em 1857, portanto ele se refere aos acontecimentos anteriores à obra de Kardec, que publicou O Livro dos Espíritos exatamente no mesmo ano. 

(a Augusto Comte) - Acredita ainda que o progresso seja “substitutista”, no sentido de que um estado metafísico suplanta completamente um estado teológico e um estado positivo, por sua vez, suplanta completamente um estado metafísico? “No início, entre os povos selvagens, havia o culto aos antepassados, que evoluiu para o culto aos deuses da natureza, e depois para o culto ao Deus monoteísta. Contudo, a Filosofia logo se encarregou de banir a Teologia para o seu devido lugar, não obstante as falhas tentativas da filosofia medieval de unir razão e fé. Depois, no mundo moderno, na era do Iluminismo e da razão, a metafisica da Filosofia perdeu sua razão de ser e foi substituída pelo método empirista das ciências positivas, como a Física e a Química. Filósofos empiristas como Hume e Bacon foram precursores dessas ideias. Hoje, só a ciência pode oferecer um método seguro para avaliar a realidade. O cientificismo impera na cátedra. O próprio Espiritismo não deixa de ser uma ciência positiva, que acabou não sendo aceita na academia, por se deixar reduzir numa mísera religião. O progresso é linear e certo. Os efeitos negativos que se originaram da ciência são apenas temporários. É a ciência positiva que vai curar os males da humanidade.” 

(a Augusto Comte) - Que avaliação faz da concepção de progresso sustentada pelos defensores de sua antiga doutrina e dos efeitos sociais dela decorrentes, incluindo a Religião da Humanidade? “O Positivismo auxiliou o progresso com grandes avanços em todas as áreas. Na política, ajudou a esfacelar os antigos regimes teocráticos, impulsionando as repúblicas e democracias liberais modernas. Na ciência, ajudou o desenvolvimento técnico e científico, com a prática do método positivo. Hoje, os autores da pós-modernidade tentam em vão impedir o avanço das ciências. A religião que fundei se mostrou infrutífera e inútil, como todas as outras. Caiu no esquecimento, como um dia as outras religiões serão: uma peça de museu.” 

(a Augusto Comte) - Os grandes nomes imortalizados da humanidade que sua filosofia enaltecia: no mundo espiritual, encontrou alguns entre eles? Pôde sondar também suas impressões sobre esse outro mundo? Sobre os escritores que tenta influenciar, obteve resultados? “Não vejo todos aqui. Alguns deles não consigo acessar. Parecem estar em esferas mais altas. Tenho dificuldade de me elevar e sair deste mundo. Tento me comunicar com escritores encarnados, mas muitos não me escutam, como se fossem surdos ou não tivessem o meu gênio para compreender minhas ideias. Vejo aqui com vocês um antigo filósofo, Agostinho. Sinto algo muito forte e grandioso nele. Não consigo entender o motivo.”

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