616. Será possível que Deus em certa época haja prescrito aos homens o que noutra época lhes proibiu? “Deus não se engana. Os homens é que são obrigados a modificar suas leis, por serem imperfeitas. As de Deus, essas são perfeitas. A harmonia que reina no universo material, como no universo moral, se funda em leis estabelecidas por Deus desde toda a eternidade.”
616. Será possível que Deus em certa época haja prescrito aos homens o que noutra época lhes proibiu?
“Deus não se engana. Os homens é que são obrigados a modificar suas leis, por serem imperfeitas. As de Deus, essas são perfeitas. A harmonia que reina no universo material, como no universo moral, se funda em leis estabelecidas por Deus desde toda a eternidade.”
Há uma tradição importante de historiadores, filósofos e sociólogos que argumenta que o cristianismo foi um dos pilares da civilização ocidental, ao lado da herança greco-romana. Eles divergem sobre o grau dessa influência, mas defendem que ela foi decisiva para instituições como universidades, ciência, hospitais, direito, ética e concepções de pessoa humana.
ResponderExcluirAlguns dos autores mais conhecidos são:
### Historiadores da ciência
* Pierre Duhem
* Argumentou que a ciência moderna surgiu em continuidade com a filosofia natural medieval cristã.
* Destacou o papel das universidades medievais.
* Stanley Jaki
* Defendeu que a ciência moderna nasceu especificamente no ambiente cristão.
* Afirmava que a visão cristã de um universo racional criado por Deus favoreceu a investigação científica.
* Edward Grant
* Mostrou a importância das universidades medievais para o desenvolvimento da ciência.
* David C. Lindberg
* Contestou a ideia de um conflito permanente entre ciência e cristianismo.
* Rodney Stark
* Em *The Victory of Reason*, sustenta que a ciência moderna surgiu em condições criadas pela cultura cristã ocidental.
### Historiadores da civilização ocidental
* Christopher Dawson
* Talvez o mais importante autor sobre o papel do cristianismo na formação da Europa.
* Considerava a cultura europeia incompreensível sem a Igreja.
* Tom Holland
* Em *Dominion*, argumenta que muitos valores modernos considerados seculares derivam do cristianismo.
* Larry Siedentop
* Em *Inventing the Individual*, defende que a noção moderna de indivíduo tem raízes cristãs.
* Rémi Brague
* Estuda a síntese entre Jerusalém (cristianismo), Atenas (filosofia grega) e Roma.
### Direito, pessoa humana e instituições
* Harold J. Berman
* Mostrou a influência do direito canônico sobre o desenvolvimento do direito ocidental.
* John Witte Jr.
* Trabalha a relação entre cristianismo, direitos humanos e direito moderno.
* Jacques Le Goff
* Estudou como a cristandade medieval moldou as instituições europeias.
### Autores clássicos da sociologia
* Max Weber
* Embora famoso pela tese sobre o protestantismo e o capitalismo, via o cristianismo como uma força decisiva na racionalização da sociedade ocidental.
### A visão da síntese ocidental
Muitos desses autores descrevem a civilização ocidental como resultado da fusão de quatro grandes heranças:
1. Filosofia grega (Platão, Aristóteles).
2. Direito e organização política romana.
3. Cristianismo (católico e, depois, protestante).
4. Tradições germânicas e outros elementos dos povos europeus.
Essa interpretação é muito comum em autores como Christopher Dawson, Rémi Brague e Jacques Le Goff.
Também é importante notar que há historiadores que discordam da tese de que o cristianismo foi decisivo para a ciência moderna, como Steven Shapin e Peter Harrison, que costumam oferecer explicações mais complexas, envolvendo fatores econômicos, políticos e intelectuais.
Se você quiser uma lista dos autores mais favoráveis à ideia de que "a ciência moderna nasceu da cosmovisão cristã", posso organizar um ranking dos principais defensores dessa tese e seus argumentos centrais.
Segundo autores como Stanley Jaki, Pierre Duhem, Edward Grant e Rodney Stark, o cristianismo teria contribuído para a ciência de várias maneiras. É importante notar que essa é uma interpretação historiográfica debatida; outros autores consideram esses fatores importantes, mas não exclusivos do cristianismo.
ResponderExcluir### 1. A ideia de um universo racional
Na visão cristã tradicional, o mundo foi criado por um Deus racional e ordenado.
Isso teria incentivado a crença de que:
* a natureza segue leis consistentes;
* essas leis podem ser descobertas pela razão humana;
* o universo não é caótico nem governado por caprichos divinos.
Muitos cientistas modernos, como Johannes Kepler e Isaac Newton, afirmavam estar buscando compreender a ordem estabelecida por Deus.
### 2. Dessacralização da natureza
Em muitas religiões antigas, certos rios, florestas, montanhas ou astros eram considerados divinos.
O cristianismo ensinava que:
* a criação não é Deus;
* Sol, Lua e estrelas são criaturas;
* a natureza pode ser estudada sem profaná-la.
Segundo alguns historiadores, isso favoreceu uma atitude investigativa em relação ao mundo natural.
### 3. Criação das universidades
As primeiras universidades permanentes da Europa surgiram na Idade Média cristã:
* Universidade de Bolonha
* Universidade de Paris
* Universidade de Oxford
Essas instituições criaram ambientes estáveis para pesquisa, ensino e debate intelectual.
### 4. Preservação do conhecimento antigo
Após a queda do Império Romano do Ocidente, muitos mosteiros preservaram manuscritos da Antiguidade.
Monges copiaram obras de:
* Aristóteles
* Cícero
* Virgílio
* diversos autores científicos e matemáticos.
Sem esse trabalho, parte da literatura clássica poderia ter se perdido.
### 5. Confiança na razão humana
A teologia cristã afirmava que o ser humano foi criado à imagem de Deus (*imago Dei*).
Alguns pensadores concluíram que:
* a razão humana é confiável;
* compreender a natureza é uma atividade legítima;
* estudar a criação é uma forma de conhecer melhor o Criador.
### 6. Desenvolvimento da filosofia natural medieval
Antes da Revolução Científica, estudiosos medievais já discutiam:
* movimento dos corpos;
* óptica;
* astronomia;
* matemática aplicada.
Autores como Jean Buridan e Nicole Oresme formularam ideias que alguns historiadores veem como precursoras da física moderna.
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## E quanto à ciência antiga?
O cristianismo não criou a ciência antiga. A ciência antiga nasceu principalmente no mundo grego.
Grandes contribuições vieram de:
* Tales de Mileto
* Pitágoras
* Aristóteles
* Arquimedes
* Hiparco
* Ptolomeu
O que muitos desses historiadores defendem é que o cristianismo não inventou a ciência, mas ajudou a preservar, institucionalizar e desenvolver a herança científica greco-romana, criando algumas das condições culturais que favoreceram o surgimento da ciência moderna entre os séculos XVI e XVII.
Por isso, uma formulação comum entre esses autores é que a ciência moderna seria fruto da combinação de:
* filosofia grega,
* matemática grega,
* direito e organização romanos,
* tradição universitária medieval,
* e cosmovisão cristã.
Essa é uma questão debatida entre historiadores. É importante lembrar que o mundo islâmico teve uma tradição científica muito rica entre os séculos VIII e XIII, produzindo avanços importantes em matemática, astronomia, medicina, óptica e química.
ResponderExcluirAlguns nomes importantes são:
* Al-Khwarizmi (álgebra)
* Ibn Sina (Avicena)
* Ibn al-Haytham (óptica)
* Averróis




A pergunta que muitos historiadores fazem não é "por que não houve ciência no Islã?", mas "por que a Revolução Científica dos séculos XVI e XVII ocorreu na Europa e não no mundo islâmico?".
Existem várias explicações propostas:
### 1. Instituições diferentes
Autores como Toby Huff argumentam que a Europa desenvolveu universidades autônomas com certa independência jurídica e intelectual, enquanto o ensino superior islâmico estava mais centrado em instituições religiosas e jurídicas.
Essa tese é controversa, mas bastante influente.
### 2. Filosofia e teologia
Alguns historiadores apontam que correntes teológicas influentes, como a associada a Al-Ghazali, tornaram mais difícil a aceitação de certas ideias da filosofia grega.
Outros historiadores consideram exagerada a ideia de que Al-Ghazali "matou a ciência islâmica", observando que a atividade científica continuou por séculos depois dele.
### 3. Fragmentação política europeia
A Europa era dividida em muitos reinos e cidades rivais.
Se um estudioso enfrentasse problemas em um lugar, podia se mudar para outro. Por exemplo, ideias controversas podiam circular entre diferentes centros intelectuais.
Alguns autores consideram essa competição um fator importante para a inovação.
### 4. Revolução comercial e tecnológica
O crescimento econômico europeu, a navegação oceânica, a imprensa e a expansão do comércio criaram demanda por astronomia, matemática, cartografia e engenharia.
### 5. A tese da cosmovisão cristã
Autores como Stanley Jaki e Rodney Stark defendem que certas crenças cristãs favoreceram o surgimento da ciência moderna:
* universo criado de forma racional;
* leis naturais estáveis;
* legitimidade do estudo da natureza.
Essa tese tem defensores, mas não é aceita por todos os historiadores.
### O que pensa a historiografia atual?
Hoje, a maioria dos especialistas evita explicações simples do tipo:
* "o cristianismo criou a ciência";
* "o Islã impediu a ciência".
A explicação mais comum é que a Revolução Científica surgiu de uma combinação complexa de fatores:
* herança grega;
* ciência islâmica medieval;
* universidades europeias;
* teologia cristã;
* crescimento econômico;
* imprensa;
* competição política entre Estados europeus.
Muitos historiadores ressaltam que sem a preservação e o desenvolvimento do conhecimento pelos estudiosos islâmicos, parte importante da herança científica da Antiguidade talvez não tivesse chegado à Europa medieval. Portanto, a ciência moderna é frequentemente vista como resultado de contribuições gregas, islâmicas e europeias cristãs, e não de uma única civilização.
Depende do que você quer dizer por "volátil".
ResponderExcluirNa teologia clássica islâmica, Deus (Allah) não é considerado volátil, imprevisível ou sujeito a mudanças de humor. Assim como no cristianismo e no judaísmo, Deus é visto como perfeito, eterno e imutável em sua essência.
A questão surge porque algumas correntes teológicas islâmicas enfatizaram mais a vontade absoluta de Deus do que a existência de leis naturais necessárias.
Por exemplo:
* Na tradição associada a Al-Ghazali e ao ocasionalismo islâmico, o fogo não queimaria por uma força própria da natureza; Deus criaria diretamente cada evento a cada instante.
* Assim, o algodão não queimaria "porque o fogo tem o poder de queimar", mas porque Deus decide criar esse efeito naquele momento.
Já muitos teólogos cristãos medievais, influenciados por Aristóteles e Tomás de Aquino, sustentavam que Deus criou causas secundárias reais na natureza. O fogo realmente possui uma natureza pela qual queima, mesmo que sua existência dependa de Deus.
Por causa disso, alguns historiadores como Stanley Jaki e Toby Huff argumentaram que a visão cristã favoreceria mais a busca por leis naturais permanentes.
Contudo, essa tese é discutida. Muitos estudiosos observam que cientistas muçulmanos como Ibn al-Haytham, Al-Biruni e Ibn Sina estudavam regularidades da natureza e realizavam observações e experimentos, apesar de suas crenças religiosas.
Portanto, seria mais correto dizer que:
* Algumas correntes islâmicas enfatizaram mais a soberania direta da vontade divina sobre cada acontecimento.
* Algumas correntes cristãs medievais enfatizaram mais a existência de leis naturais estáveis instituídas por Deus.
* Mas nem o Deus do Islã nem o Deus do cristianismo é considerado "volátil" pela teologia clássica dessas religiões. Ambos são entendidos como seres perfeitos, racionais e consistentes; a diferença está mais na forma como atuam no mundo segundo certas escolas teológicas.